sexta-feira, 12 de junho de 2015
Abraço (soneto)
ABRAÇO
Se entre Gaio e Gaia, ou o Sim e o Sim,
Seja o abraço meu co'o teu perene,
Atado ante altar o mais solene
Do meu amor por ti, do teu por mim.
Se na ventura de não ter-te o Não,
Meu coração ao teu devote tanto
Silêncio e olhar e voz e grito e canto,
Que o verso seja um verso só, então.
Tuas pedras e mi'as pedras — num só nome!
Compartidas num fado, à mesma mesa,
A gratidão e a angústia, o riso e a fome,
E pronto ao sangue, ao aço e ao perigo,
Sempre seja meu gládio em tua defesa,
Sempre teu abraço seja o meu abrigo.
(G. M. Brasilino)
Se entre Gaio e Gaia, ou o Sim e o Sim,
Seja o abraço meu co'o teu perene,
Atado ante altar o mais solene
Do meu amor por ti, do teu por mim.
Se na ventura de não ter-te o Não,
Meu coração ao teu devote tanto
Silêncio e olhar e voz e grito e canto,
Que o verso seja um verso só, então.
Tuas pedras e mi'as pedras — num só nome!
Compartidas num fado, à mesma mesa,
A gratidão e a angústia, o riso e a fome,
E pronto ao sangue, ao aço e ao perigo,
Sempre seja meu gládio em tua defesa,
Sempre teu abraço seja o meu abrigo.
(G. M. Brasilino)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
O CONTRÁRIO
O CONTRÁRIO
Do que se me acha escrito em bestiário,
Só vejo u'a sombra, um eco, um 'squecimento
Do que teria sido, se não fosse
Antes o seu escárnio e o seu contrário.
No que se me refaz o cosmo vário,
Mui mais se me desfaz o meu momento,
Que apaga e se me apaga o que, de doce,
Se faz no férreo escarro, o seu contrário.
(G. M. Brasilino)
Do que se me acha escrito em bestiário,
Só vejo u'a sombra, um eco, um 'squecimento
Do que teria sido, se não fosse
Antes o seu escárnio e o seu contrário.
No que se me refaz o cosmo vário,
Mui mais se me desfaz o meu momento,
Que apaga e se me apaga o que, de doce,
Se faz no férreo escarro, o seu contrário.
(G. M. Brasilino)
quarta-feira, 18 de junho de 2014
CAMINHOS DO ASSOMBRO (I)
Caminhos do Assombro
I
O que se há por defesa quando mostra
A face humana mais que face humana?
Quais das misérias da alma nos permitem
Fazer da sarça ardente em farsa ardente?
Pois que debaixo da sombra divina
— Porquanto o que de sombra e de desvelo
Lá se acha, tenho eu cá de sombra e dor —
Tudo é revelação e tudo é assombro.
Não era e então já é, assim resplende
Uma face nova em fenecendo a antiga,
Que furta-me a clareza da ignorância
E deixa para trás só o meu assombro.
Poucas palavras bastam e muitas não
Dirão tudo que ali se mostra e oculta.
Ingente, nasce um nome como as arras
de quiçá um dia agarrar-lhe o interior.
Que nome lhe batiza e lhe consagra,
E em que altar se lhe imola em tinto humor?
E sob que sacerdócio se provê
Seu epitáfio e seu sepultamento?
E gramática qual — ela é atéia —
Permite que novas mentiras jurem
Por verdades arcaicas o que ali
Se mostra sem palavras e entre tantas?
Mas abre-se ante a mim, muito diverso
E todo semelhante, o desespero,
O que não é senão o filho espúrio
Do meu esquecimento e desse assombro;
Do assombro dos momentos em se abre
E se desata, sem que esforço eu faça,
O nó que une ao tanto que confunde
os fios do meu já-ser e meu não-inda;
Mas do esquecimento com que esqueço
Dos fios que se ligam e só recordo
Da confusão que os liga e que os desliga.
(G. M. Brasilino)
I
O que se há por defesa quando mostra
A face humana mais que face humana?
Quais das misérias da alma nos permitem
Fazer da sarça ardente em farsa ardente?
Pois que debaixo da sombra divina
— Porquanto o que de sombra e de desvelo
Lá se acha, tenho eu cá de sombra e dor —
Tudo é revelação e tudo é assombro.
Não era e então já é, assim resplende
Uma face nova em fenecendo a antiga,
Que furta-me a clareza da ignorância
E deixa para trás só o meu assombro.
Poucas palavras bastam e muitas não
Dirão tudo que ali se mostra e oculta.
Ingente, nasce um nome como as arras
de quiçá um dia agarrar-lhe o interior.
Que nome lhe batiza e lhe consagra,
E em que altar se lhe imola em tinto humor?
E sob que sacerdócio se provê
Seu epitáfio e seu sepultamento?
E gramática qual — ela é atéia —
Permite que novas mentiras jurem
Por verdades arcaicas o que ali
Se mostra sem palavras e entre tantas?
Mas abre-se ante a mim, muito diverso
E todo semelhante, o desespero,
O que não é senão o filho espúrio
Do meu esquecimento e desse assombro;
Do assombro dos momentos em se abre
E se desata, sem que esforço eu faça,
O nó que une ao tanto que confunde
os fios do meu já-ser e meu não-inda;
Mas do esquecimento com que esqueço
Dos fios que se ligam e só recordo
Da confusão que os liga e que os desliga.
(G. M. Brasilino)
quinta-feira, 5 de junho de 2014
UM SONETO
Um dia e outro dia e outro após,
E as efemérides e as conjunções
De causas que surpassam às ações,
Fazem com que eu e tu sejamos nós.
Jamais te encontraria se os meus dias
Não fossem aos teus dias tão iguais,
Se as horas que envilecem a nós, mortais,
Não atassem, u'a à outra, fugidias
Almas que em vendo vêem-se imortais,
Que não se vêem se não vêem-se tais,
Que vêem-se juntas quando se vêem sós,
Não nascessem e tornassem a nascer
Um dia e outro dia e outro após.
(G. M. Brasilino)
E as efemérides e as conjunções
De causas que surpassam às ações,
Fazem com que eu e tu sejamos nós.
Jamais te encontraria se os meus dias
Não fossem aos teus dias tão iguais,
Se as horas que envilecem a nós, mortais,
Não atassem, u'a à outra, fugidias
Almas que em vendo vêem-se imortais,
Que não se vêem se não vêem-se tais,
Que reconhecem sem se jamais ver,
Que vêem-se juntas quando se vêem sós,
Não nascessem e tornassem a nascer
Um dia e outro dia e outro após.
(G. M. Brasilino)
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Ceticismo
Em "L'Être et les êtres" (O Ser e os seres, ou O Ser e os entes), Maurice Blondel conta uma história interessante:
Quando criança, ele tinha uma gaiola com lagartas, que criava com o propósito de ver as borboletas. Mas um homem bastante rústico (e bastante cético), que não entendia como lagartas podiam se tornar borboletas, decidiu tomar uma lagarta e colocá-la em uma caixa, com água, folhas e grãos de trigo.
Resultado: a lagarta morreu. Ceticismo é incompatível com borboletas. Tudo deve ser conhecido na forma como se dá a conhecer.
Quando criança, ele tinha uma gaiola com lagartas, que criava com o propósito de ver as borboletas. Mas um homem bastante rústico (e bastante cético), que não entendia como lagartas podiam se tornar borboletas, decidiu tomar uma lagarta e colocá-la em uma caixa, com água, folhas e grãos de trigo.
Resultado: a lagarta morreu. Ceticismo é incompatível com borboletas. Tudo deve ser conhecido na forma como se dá a conhecer.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
ANDORINHA
ANDORINHA
Andorinha, andorinha,
Onde anda o meu amor?
Diz! Encontra ou advinha,
Ouve a voz de algum rumor,
e então contar-me vem!
Sabe logo ou sabe bem!
Andorinha, andorinha,
Vai buscar o meu amor!
Onde vive o bem que eu tinha?
Lá? Nenhures? Por favor!
Se não trazes minha paz,
Sua lembrança, ao menos, traz!
Andorinha, andorinha,
Diz-me então que tu já a viste!
Andorinha, andorinha,
Pois sem ela eu canto triste!
E responde-me com um chiste:
"Minha cantiga é feliz!"
Andorinha, andorinha,
Todos te pedem o mesmo,
Mas o mesmo que te pedem
Não é mesmo igual ao meu.
(G. M. Brasilino)
Andorinha, andorinha,
Onde anda o meu amor?
Diz! Encontra ou advinha,
Ouve a voz de algum rumor,
e então contar-me vem!
Sabe logo ou sabe bem!
Andorinha, andorinha,
Vai buscar o meu amor!
Onde vive o bem que eu tinha?
Lá? Nenhures? Por favor!
Se não trazes minha paz,
Sua lembrança, ao menos, traz!
Andorinha, andorinha,
Diz-me então que tu já a viste!
Andorinha, andorinha,
Pois sem ela eu canto triste!
E responde-me com um chiste:
"Minha cantiga é feliz!"
Andorinha, andorinha,
Todos te pedem o mesmo,
Mas o mesmo que te pedem
Não é mesmo igual ao meu.
(G. M. Brasilino)
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
LEMBRANÇA
O Homem é o que faz de sua lembrança,
matéria viva e informe e fantasmal
na qual, se por discórdia ou se aliança,
sua natureza engendra e, afinal,
o mesmo rio no curso e na nascente
percebe, diga-o bem ou diga-o mal.
Se é chão, montanha a céus sempre ascendente,
Se é chão, que traga e abraça, movediço,
é chão. Se é como fogo, que é serpente,
que de forjar verdades tem feitiço,
é inferno, é morte, é caos, é destruição,
é luz, é força, é espírito, é serviço,
forja também verdades, mas que são.
De além da imprecação e do esconjuro,
das lembranças que logo o deixarão,
não o deixará a lembrança do futuro.
(G. M. Brasilino)
matéria viva e informe e fantasmal
na qual, se por discórdia ou se aliança,
sua natureza engendra e, afinal,
o mesmo rio no curso e na nascente
percebe, diga-o bem ou diga-o mal.
Se é chão, montanha a céus sempre ascendente,
Se é chão, que traga e abraça, movediço,
é chão. Se é como fogo, que é serpente,
que de forjar verdades tem feitiço,
é inferno, é morte, é caos, é destruição,
é luz, é força, é espírito, é serviço,
forja também verdades, mas que são.
De além da imprecação e do esconjuro,
das lembranças que logo o deixarão,
não o deixará a lembrança do futuro.
(G. M. Brasilino)
domingo, 20 de outubro de 2013
BALADA DOS TRÊS AMORES
BALADA DOS TRÊS AMORES
Em terra e céus, na imensidão mais vasta,
Amor a tudo toca e simboliza,
Que de imaginações se faz ou gasta,
Que cria para si qual por si visa.
Amor, que não se cala, e nada basta,
E cuja voz é qual clangor e brado,
Que aos seus e terra move, e a tudo arrasta:
O amar em que o amar se quer amado.
E se de dores, de lamentação,
Cercado vê-se o Amor, como não raro,
Jamais se encontrará na multidão
Como se encontra o Amor no que lhe é caro,
Em quem o sim é sim e o não é não,
E num mesmo horizonte, lado a lado,
Faz-se toda intensão uma intenção.
O amor em que o que ama é como o amado.
Amor, a mais difícil e verdadeira
Vocação e chamado transcendente,
Em que alma espedaçada faz-se inteira.
Então contempla e acha e vê e sente
Que só o Amor é real, que à sua maneira
Exige tudo a quem já tem legado,
No encontro à coisa Última e à Primeira:
No amar em que me faço o ser amado.
ENVOI
A ti, Verdade, a balada se canta.
A ti, Querer, o canto aqui entoado.
A ti, Rever, então, no que me encanta.
A ti, Saudade, em quem me rendo amado.
(G. M. Brasilino)
Em terra e céus, na imensidão mais vasta,
Amor a tudo toca e simboliza,
Que de imaginações se faz ou gasta,
Que cria para si qual por si visa.
Amor, que não se cala, e nada basta,
E cuja voz é qual clangor e brado,
Que aos seus e terra move, e a tudo arrasta:
O amar em que o amar se quer amado.
E se de dores, de lamentação,
Cercado vê-se o Amor, como não raro,
Jamais se encontrará na multidão
Como se encontra o Amor no que lhe é caro,
Em quem o sim é sim e o não é não,
E num mesmo horizonte, lado a lado,
Faz-se toda intensão uma intenção.
O amor em que o que ama é como o amado.
Amor, a mais difícil e verdadeira
Vocação e chamado transcendente,
Em que alma espedaçada faz-se inteira.
Então contempla e acha e vê e sente
Que só o Amor é real, que à sua maneira
Exige tudo a quem já tem legado,
No encontro à coisa Última e à Primeira:
No amar em que me faço o ser amado.
ENVOI
A ti, Verdade, a balada se canta.
A ti, Querer, o canto aqui entoado.
A ti, Rever, então, no que me encanta.
A ti, Saudade, em quem me rendo amado.
(G. M. Brasilino)
domingo, 6 de outubro de 2013
MIDWAY BACK (ode)
MIDWAY BACK
'Twas owl-light. He did decide
to return, went on to pray,
but could not find where to abide
on the way.
Now the old known road was strange.
Once so colourful, now grey.
How did come so fearsome change
in a day?
Once so colourful, now rack.
Full of angels, now dismay.
Would it lead him all way back
or astray?
In the middle he found hope,
when he heard a yell to say
something great and it was "Go!"
Would he stay?
He lacked answers and their lack
he deplored but threw away.
Midway forward, midway back,
that's midway.
He was lone, but not alone.
He saw lots of eyes at bay.
Some eyes would just sway his bone,
some allay.
For that lone one it was cold.
Almost blind, but still not prey.
He could still hear chants of old.
'Twas Lord's Day.
(G. M. Brasilino)
'Twas owl-light. He did decide
to return, went on to pray,
but could not find where to abide
on the way.
Now the old known road was strange.
Once so colourful, now grey.
How did come so fearsome change
in a day?
Once so colourful, now rack.
Full of angels, now dismay.
Would it lead him all way back
or astray?
In the middle he found hope,
when he heard a yell to say
something great and it was "Go!"
Would he stay?
He lacked answers and their lack
he deplored but threw away.
Midway forward, midway back,
that's midway.
He was lone, but not alone.
He saw lots of eyes at bay.
Some eyes would just sway his bone,
some allay.
For that lone one it was cold.
Almost blind, but still not prey.
He could still hear chants of old.
'Twas Lord's Day.
(G. M. Brasilino)
terça-feira, 1 de outubro de 2013
HERANÇA (soneto)
HERANÇA
Imagens que se vivem tais e quais
as margens que estão longe e já beijei-as,
as riquezas perdidas que a mancheias
ateias fogo, ó Tempo, e acendes mais.
Herança, quanto irmana desirmana,
que perde o que já a toma, que é a Herança
que p'ra si traz tudo que de si lança.
Europa que é América e Africana.
É vocação da alma portuguesa,
que evoca-lhe, em segunda natureza,
quanto de Solidão, quão de Verdade.
Que a lusitana nau, camoniana,
promete e profetiza, e em si promana.
Que de mim mesmo brota e a mim me invade.
(G. M. Brasilino)
Imagens que se vivem tais e quais
as margens que estão longe e já beijei-as,
as riquezas perdidas que a mancheias
ateias fogo, ó Tempo, e acendes mais.
Herança, quanto irmana desirmana,
que perde o que já a toma, que é a Herança
que p'ra si traz tudo que de si lança.
Europa que é América e Africana.
É vocação da alma portuguesa,
que evoca-lhe, em segunda natureza,
quanto de Solidão, quão de Verdade.
Que a lusitana nau, camoniana,
promete e profetiza, e em si promana.
Que de mim mesmo brota e a mim me invade.
(G. M. Brasilino)
sábado, 28 de setembro de 2013
SERENDIPIDADE (soneto)
SERENDIPIDADE
Ao Homem o magnífico Portento
é dado, hora fadada e aleatória
em que nada assemelha na memória,
de além da Sensação, do Sentimento.
Já trêmulo e sem nada mais poder,
jura, e sem a loquacidade impura,
que de alma mesmo atada porventura
ouvira a voz lacônica do Ser.
Em que demanda e indaga a Unidade,
a Essência que encarnante e que ideal
subjaz aos seus espasmos criaturais,
já mudo pode ver que tudo brade
à Eternidade, a lhe cingir, fatal,
na Pedra, de uma vez e nunca mais.
(G. M. Brasilino)
Ao Homem o magnífico Portento
é dado, hora fadada e aleatória
em que nada assemelha na memória,
de além da Sensação, do Sentimento.
Já trêmulo e sem nada mais poder,
jura, e sem a loquacidade impura,
que de alma mesmo atada porventura
ouvira a voz lacônica do Ser.
Em que demanda e indaga a Unidade,
a Essência que encarnante e que ideal
subjaz aos seus espasmos criaturais,
já mudo pode ver que tudo brade
à Eternidade, a lhe cingir, fatal,
na Pedra, de uma vez e nunca mais.
(G. M. Brasilino)
domingo, 15 de setembro de 2013
CAVERNA (soneto)
CAVERNA
Escava o homem covarde na caverna
moderna. Do primeiro era sacra urna
na qual com geometria abstrata e eterna
enfeitiçara a sombra vil noturna.
Enfeitiçara, sim, mas se era erma
a vida humana... Horror tudo transtorna!
Pecado dos pecados da alma enferma
é ao horror tornar, e ele retorna.
E na caverna a sua carne oculta
ao mundo, e a tudo odeia, mas exulta
pois pensa, na caverna, ser um deus.
E na caverna jaz sua dor sepulta.
Ao mundo insulta, e a tudo, e a si se insulta
pois pensa... Não, já morre... Adeus, adeus.
(G. M. Brasilino)
Escava o homem covarde na caverna
moderna. Do primeiro era sacra urna
na qual com geometria abstrata e eterna
enfeitiçara a sombra vil noturna.
Enfeitiçara, sim, mas se era erma
a vida humana... Horror tudo transtorna!
Pecado dos pecados da alma enferma
é ao horror tornar, e ele retorna.
E na caverna a sua carne oculta
ao mundo, e a tudo odeia, mas exulta
pois pensa, na caverna, ser um deus.
E na caverna jaz sua dor sepulta.
Ao mundo insulta, e a tudo, e a si se insulta
pois pensa... Não, já morre... Adeus, adeus.
(G. M. Brasilino)
domingo, 8 de setembro de 2013
LEMBRANÇA VELHA (soneto)
LEMBRANÇA VELHA
Neste museu de eus — eu consumido —
A vela cansa e a pouca luz me lança
A brisa me esfarela uma lembrança
E lança outra lembrança ao meu sentido
Eu lembro — tudo, tudo paralisa
A brisa vira a folha já amarela
A vela quase morre e quase gela
Mas ela não é mesmo mais precisa
Eu lembro e eu lembro por que eu lembro disso
Pois livre faz e guarda o mesmo eu
Que inda é meu eu que lembrará, submisso
E vi, de me lembrar, que aconteceu,
Que em ver e ouvir eu mesmo me enfeitiço
— Lembrança é gozo, é cruz de cireneu
(G. M. Brasilino)
Neste museu de eus — eu consumido —
A vela cansa e a pouca luz me lança
A brisa me esfarela uma lembrança
E lança outra lembrança ao meu sentido
Eu lembro — tudo, tudo paralisa
A brisa vira a folha já amarela
A vela quase morre e quase gela
Mas ela não é mesmo mais precisa
Eu lembro e eu lembro por que eu lembro disso
Pois livre faz e guarda o mesmo eu
Que inda é meu eu que lembrará, submisso
E vi, de me lembrar, que aconteceu,
Que em ver e ouvir eu mesmo me enfeitiço
— Lembrança é gozo, é cruz de cireneu
(G. M. Brasilino)
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
TESTAMENTO DE UMA VELA (soneto)
TESTAMENTO DE UMA VELA
Lá fora chove e aqui já morre u'a vela
Partilha a pouca luz que nesta cela
Consagra a rubra letra e nós nos sela
Sozinhos ela e eu, como eu e ela
Despede-se e dissipa, posso vê-la
À vela que minha alma a mim me espelha
Já prestes... como de última centelha
À vela que é por mim mi'a própria estrela
A vela a mim me vela e a mim disputa
Das luzes insensíveis e insinceras
As luzes tão sem luz, as do futuro
Mas deixa-me, eu de luto, e não sem luta
Revela a vela o que era de outras eras
E o testamento seu leio eu no escuro
(G. M. Brasilino)
Lá fora chove e aqui já morre u'a vela
Partilha a pouca luz que nesta cela
Consagra a rubra letra e nós nos sela
Sozinhos ela e eu, como eu e ela
Despede-se e dissipa, posso vê-la
À vela que minha alma a mim me espelha
Já prestes... como de última centelha
À vela que é por mim mi'a própria estrela
A vela a mim me vela e a mim disputa
Das luzes insensíveis e insinceras
As luzes tão sem luz, as do futuro
Mas deixa-me, eu de luto, e não sem luta
Revela a vela o que era de outras eras
E o testamento seu leio eu no escuro
(G. M. Brasilino)
terça-feira, 27 de agosto de 2013
DO OUTRO LADO DA MONTANHA (soneto)
DO OUTRO LADO DA MONTANHA
Está lá, do outro lado da montanha
Um vale que eu não vejo, mas um vale
Que, ganho na alma, mais do que se fale,
Vale e no se valer minha alma ganha
Lá está, p'ra mais além... e que me cale,
Tão belo que é o dourado rio que banha,
Que jorra e mata a sede e já lhe apanha
Ao meu bem, sem ter nada que lhe iguale
Se em ver meu bem não hei eu por virtude
Fazer-me bem pode um tal bem? Não, sim...
Se do outro lado está, já no ultramar...
Pois tem-me vivo e tira-me a saúde,
Não que o meu bem não esteja junto a mim,
Mas que esteja eu tão longe, e cá a lhe amar
(G. M. Brasilino)
Está lá, do outro lado da montanha
Um vale que eu não vejo, mas um vale
Que, ganho na alma, mais do que se fale,
Vale e no se valer minha alma ganha
Lá está, p'ra mais além... e que me cale,
Tão belo que é o dourado rio que banha,
Que jorra e mata a sede e já lhe apanha
Ao meu bem, sem ter nada que lhe iguale
Se em ver meu bem não hei eu por virtude
Fazer-me bem pode um tal bem? Não, sim...
Se do outro lado está, já no ultramar...
Pois tem-me vivo e tira-me a saúde,
Não que o meu bem não esteja junto a mim,
Mas que esteja eu tão longe, e cá a lhe amar
(G. M. Brasilino)
sábado, 15 de junho de 2013
VIOLÊNCIA! (soneto)
VIOLÊNCIA!
Da terra em rasgo e engasgo o braço ergueu
Cortando o aço ao aço, e assim erguido
Ferido ao homem fez e fez ferido
De roído que fez ao que lhe roeu
"Violência!" berra o mais violento braço
Em sua possessão, a incendiária
Cipoada coruscante, e ali uma ária
Não cantará do resto e do bagaço
E a onda, a onda mais e mais se agita,
Fornalha eterna de seu amor odiento,
Rebento de uma triste, triste noite
Sepulto faz-se o culto mamonita
E vê-se ali, ali, por um momento
Revolver-se a Legião em seu açoite
(G. M. Brasilino)
Da terra em rasgo e engasgo o braço ergueu
Cortando o aço ao aço, e assim erguido
Ferido ao homem fez e fez ferido
De roído que fez ao que lhe roeu
"Violência!" berra o mais violento braço
Em sua possessão, a incendiária
Cipoada coruscante, e ali uma ária
Não cantará do resto e do bagaço
E a onda, a onda mais e mais se agita,
Fornalha eterna de seu amor odiento,
Rebento de uma triste, triste noite
Sepulto faz-se o culto mamonita
E vê-se ali, ali, por um momento
Revolver-se a Legião em seu açoite
(G. M. Brasilino)
quinta-feira, 6 de junho de 2013
LÍRIO CRISTAL (soneto)
LÍRIO CRISTAL
Hei visto além o Lírio em luz vestal
Ali - sim, mesmo ali! - mostrou Divino
A Flor, como d'olor tão cristalino
Mais fino que ouro fino, de Cristal
Ali, velado Lírio em véu hialino
Ali, sem que eu lhe alcance, e como a um braço
Ali, como ao mui longe, como a um passo
Ali, mas qual prenúncio sibilino
Teria por minha alma agraciada
Se doce ao fim eu visse o quente Lume
Ouvisse o seu Abraço a me calar
Fazia Sol, pois era madrugada
E nada, só restava o seu Perfume
E nada, o Lírio, o Lírio era em seu Lar
(G. M. Brasilino)
Hei visto além o Lírio em luz vestal
Ali - sim, mesmo ali! - mostrou Divino
A Flor, como d'olor tão cristalino
Mais fino que ouro fino, de Cristal
Ali, velado Lírio em véu hialino
Ali, sem que eu lhe alcance, e como a um braço
Ali, como ao mui longe, como a um passo
Ali, mas qual prenúncio sibilino
Teria por minha alma agraciada
Se doce ao fim eu visse o quente Lume
Ouvisse o seu Abraço a me calar
Fazia Sol, pois era madrugada
E nada, só restava o seu Perfume
E nada, o Lírio, o Lírio era em seu Lar
(G. M. Brasilino)
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
NOITE SUBLIME (soneto)
NOITE SUBLIME
Batia forte, contra a face dos cavalos,
Inda muito antes de nascer o belo dia,
O forte vento, quando a lua se escondia
O forte vento, trazendo astros, ao mostrá-los...
Mostravam brilho da poeira estelar
A nos mostrar onde, oxalá, que moraria
Cavalo de aço e, em negra noite, ferrovia
Mostrando o brilho, aquele!, o brilho do meu lar
Batendo forte os meus cavalos contra o vento
Por um momento rompem céus, por um momento...
Co'o firmamento a nos cobrir por solidéu
E a solidão era vencida de almas duas
De tantos brilhos que cobriam faces nuas
A uma princesa, que nunca havia visto o céu
(G. Montenegro)
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
MEGALOMANIA DE UM IDÓLATRA (soneto)
MEGALOMANIA DE UM IDÓLATRA
Idólatra, verá-se em pretensão
De entrar no lar sagrado d'alma humana
E de mudá-lo; donde, vê-se, emana
O anelo de poder em sua mão
Por muito se adorar na escuridão
Vê em si a luz; o resto, um fosso imundo
Por isso há de almejar mudar o mundo
Por ser seu mundo mui menor que um grão
Profeta falso, que a si mesmo expia
No que mais em si mostra cobardia
E em sua cegueira escapa ao seu poder:
Que é igual ao seu mais vilesco inimigo
Que co'ele há de abraçar-se em seu jazigo
E a carne o mesmo verme há de vencer
(G. M. Brasilino)
AO CRUZADO MORTO (soneto)
AO CRUZADO MORTO
Por terra em cujo passo nunca andou
Levando ao coração o Amor e Lar
Por muito amar o que p'ra trás deixou
Por trilhas nas quais não há de voltar
Bravura armada em toda fortaleza
Entregue à Morte a amar mui mais a Vida
Tem vida neste século perdida
A ter a sua candeia eterna acesa
Cruzar de Europa bela ao Oriente
Mister que em Cruz e Espada se encatena
Cavaleiriça nobre cristiana
Peleja e fere e mingua a Lua Crescente
Sangrando a cimitarra sarracena
Minguando a marcha moura maometana
(G. M. Brasilino)
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