sábado, 28 de setembro de 2013
SERENDIPIDADE (soneto)
SERENDIPIDADE
Ao Homem o magnífico Portento
é dado, hora fadada e aleatória
em que nada assemelha na memória,
de além da Sensação, do Sentimento.
Já trêmulo e sem nada mais poder,
jura, e sem a loquacidade impura,
que de alma mesmo atada porventura
ouvira a voz lacônica do Ser.
Em que demanda e indaga a Unidade,
a Essência que encarnante e que ideal
subjaz aos seus espasmos criaturais,
já mudo pode ver que tudo brade
à Eternidade, a lhe cingir, fatal,
na Pedra, de uma vez e nunca mais.
(G. M. Brasilino)
Ao Homem o magnífico Portento
é dado, hora fadada e aleatória
em que nada assemelha na memória,
de além da Sensação, do Sentimento.
Já trêmulo e sem nada mais poder,
jura, e sem a loquacidade impura,
que de alma mesmo atada porventura
ouvira a voz lacônica do Ser.
Em que demanda e indaga a Unidade,
a Essência que encarnante e que ideal
subjaz aos seus espasmos criaturais,
já mudo pode ver que tudo brade
à Eternidade, a lhe cingir, fatal,
na Pedra, de uma vez e nunca mais.
(G. M. Brasilino)
domingo, 15 de setembro de 2013
CAVERNA (soneto)
CAVERNA
Escava o homem covarde na caverna
moderna. Do primeiro era sacra urna
na qual com geometria abstrata e eterna
enfeitiçara a sombra vil noturna.
Enfeitiçara, sim, mas se era erma
a vida humana... Horror tudo transtorna!
Pecado dos pecados da alma enferma
é ao horror tornar, e ele retorna.
E na caverna a sua carne oculta
ao mundo, e a tudo odeia, mas exulta
pois pensa, na caverna, ser um deus.
E na caverna jaz sua dor sepulta.
Ao mundo insulta, e a tudo, e a si se insulta
pois pensa... Não, já morre... Adeus, adeus.
(G. M. Brasilino)
Escava o homem covarde na caverna
moderna. Do primeiro era sacra urna
na qual com geometria abstrata e eterna
enfeitiçara a sombra vil noturna.
Enfeitiçara, sim, mas se era erma
a vida humana... Horror tudo transtorna!
Pecado dos pecados da alma enferma
é ao horror tornar, e ele retorna.
E na caverna a sua carne oculta
ao mundo, e a tudo odeia, mas exulta
pois pensa, na caverna, ser um deus.
E na caverna jaz sua dor sepulta.
Ao mundo insulta, e a tudo, e a si se insulta
pois pensa... Não, já morre... Adeus, adeus.
(G. M. Brasilino)
domingo, 8 de setembro de 2013
LEMBRANÇA VELHA (soneto)
LEMBRANÇA VELHA
Neste museu de eus — eu consumido —
A vela cansa e a pouca luz me lança
A brisa me esfarela uma lembrança
E lança outra lembrança ao meu sentido
Eu lembro — tudo, tudo paralisa
A brisa vira a folha já amarela
A vela quase morre e quase gela
Mas ela não é mesmo mais precisa
Eu lembro e eu lembro por que eu lembro disso
Pois livre faz e guarda o mesmo eu
Que inda é meu eu que lembrará, submisso
E vi, de me lembrar, que aconteceu,
Que em ver e ouvir eu mesmo me enfeitiço
— Lembrança é gozo, é cruz de cireneu
(G. M. Brasilino)
Neste museu de eus — eu consumido —
A vela cansa e a pouca luz me lança
A brisa me esfarela uma lembrança
E lança outra lembrança ao meu sentido
Eu lembro — tudo, tudo paralisa
A brisa vira a folha já amarela
A vela quase morre e quase gela
Mas ela não é mesmo mais precisa
Eu lembro e eu lembro por que eu lembro disso
Pois livre faz e guarda o mesmo eu
Que inda é meu eu que lembrará, submisso
E vi, de me lembrar, que aconteceu,
Que em ver e ouvir eu mesmo me enfeitiço
— Lembrança é gozo, é cruz de cireneu
(G. M. Brasilino)
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
TESTAMENTO DE UMA VELA (soneto)
TESTAMENTO DE UMA VELA
Lá fora chove e aqui já morre u'a vela
Partilha a pouca luz que nesta cela
Consagra a rubra letra e nós nos sela
Sozinhos ela e eu, como eu e ela
Despede-se e dissipa, posso vê-la
À vela que minha alma a mim me espelha
Já prestes... como de última centelha
À vela que é por mim mi'a própria estrela
A vela a mim me vela e a mim disputa
Das luzes insensíveis e insinceras
As luzes tão sem luz, as do futuro
Mas deixa-me, eu de luto, e não sem luta
Revela a vela o que era de outras eras
E o testamento seu leio eu no escuro
(G. M. Brasilino)
Lá fora chove e aqui já morre u'a vela
Partilha a pouca luz que nesta cela
Consagra a rubra letra e nós nos sela
Sozinhos ela e eu, como eu e ela
Despede-se e dissipa, posso vê-la
À vela que minha alma a mim me espelha
Já prestes... como de última centelha
À vela que é por mim mi'a própria estrela
A vela a mim me vela e a mim disputa
Das luzes insensíveis e insinceras
As luzes tão sem luz, as do futuro
Mas deixa-me, eu de luto, e não sem luta
Revela a vela o que era de outras eras
E o testamento seu leio eu no escuro
(G. M. Brasilino)
terça-feira, 27 de agosto de 2013
DO OUTRO LADO DA MONTANHA (soneto)
DO OUTRO LADO DA MONTANHA
Está lá, do outro lado da montanha
Um vale que eu não vejo, mas um vale
Que, ganho na alma, mais do que se fale,
Vale e no se valer minha alma ganha
Lá está, p'ra mais além... e que me cale,
Tão belo que é o dourado rio que banha,
Que jorra e mata a sede e já lhe apanha
Ao meu bem, sem ter nada que lhe iguale
Se em ver meu bem não hei eu por virtude
Fazer-me bem pode um tal bem? Não, sim...
Se do outro lado está, já no ultramar...
Pois tem-me vivo e tira-me a saúde,
Não que o meu bem não esteja junto a mim,
Mas que esteja eu tão longe, e cá a lhe amar
(G. M. Brasilino)
Está lá, do outro lado da montanha
Um vale que eu não vejo, mas um vale
Que, ganho na alma, mais do que se fale,
Vale e no se valer minha alma ganha
Lá está, p'ra mais além... e que me cale,
Tão belo que é o dourado rio que banha,
Que jorra e mata a sede e já lhe apanha
Ao meu bem, sem ter nada que lhe iguale
Se em ver meu bem não hei eu por virtude
Fazer-me bem pode um tal bem? Não, sim...
Se do outro lado está, já no ultramar...
Pois tem-me vivo e tira-me a saúde,
Não que o meu bem não esteja junto a mim,
Mas que esteja eu tão longe, e cá a lhe amar
(G. M. Brasilino)
sábado, 15 de junho de 2013
VIOLÊNCIA! (soneto)
VIOLÊNCIA!
Da terra em rasgo e engasgo o braço ergueu
Cortando o aço ao aço, e assim erguido
Ferido ao homem fez e fez ferido
De roído que fez ao que lhe roeu
"Violência!" berra o mais violento braço
Em sua possessão, a incendiária
Cipoada coruscante, e ali uma ária
Não cantará do resto e do bagaço
E a onda, a onda mais e mais se agita,
Fornalha eterna de seu amor odiento,
Rebento de uma triste, triste noite
Sepulto faz-se o culto mamonita
E vê-se ali, ali, por um momento
Revolver-se a Legião em seu açoite
(G. M. Brasilino)
Da terra em rasgo e engasgo o braço ergueu
Cortando o aço ao aço, e assim erguido
Ferido ao homem fez e fez ferido
De roído que fez ao que lhe roeu
"Violência!" berra o mais violento braço
Em sua possessão, a incendiária
Cipoada coruscante, e ali uma ária
Não cantará do resto e do bagaço
E a onda, a onda mais e mais se agita,
Fornalha eterna de seu amor odiento,
Rebento de uma triste, triste noite
Sepulto faz-se o culto mamonita
E vê-se ali, ali, por um momento
Revolver-se a Legião em seu açoite
(G. M. Brasilino)
quinta-feira, 6 de junho de 2013
LÍRIO CRISTAL (soneto)
LÍRIO CRISTAL
Hei visto além o Lírio em luz vestal
Ali - sim, mesmo ali! - mostrou Divino
A Flor, como d'olor tão cristalino
Mais fino que ouro fino, de Cristal
Ali, velado Lírio em véu hialino
Ali, sem que eu lhe alcance, e como a um braço
Ali, como ao mui longe, como a um passo
Ali, mas qual prenúncio sibilino
Teria por minha alma agraciada
Se doce ao fim eu visse o quente Lume
Ouvisse o seu Abraço a me calar
Fazia Sol, pois era madrugada
E nada, só restava o seu Perfume
E nada, o Lírio, o Lírio era em seu Lar
(G. M. Brasilino)
Hei visto além o Lírio em luz vestal
Ali - sim, mesmo ali! - mostrou Divino
A Flor, como d'olor tão cristalino
Mais fino que ouro fino, de Cristal
Ali, velado Lírio em véu hialino
Ali, sem que eu lhe alcance, e como a um braço
Ali, como ao mui longe, como a um passo
Ali, mas qual prenúncio sibilino
Teria por minha alma agraciada
Se doce ao fim eu visse o quente Lume
Ouvisse o seu Abraço a me calar
Fazia Sol, pois era madrugada
E nada, só restava o seu Perfume
E nada, o Lírio, o Lírio era em seu Lar
(G. M. Brasilino)
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
NOITE SUBLIME (soneto)
NOITE SUBLIME
Batia forte, contra a face dos cavalos,
Inda muito antes de nascer o belo dia,
O forte vento, quando a lua se escondia
O forte vento, trazendo astros, ao mostrá-los...
Mostravam brilho da poeira estelar
A nos mostrar onde, oxalá, que moraria
Cavalo de aço e, em negra noite, ferrovia
Mostrando o brilho, aquele!, o brilho do meu lar
Batendo forte os meus cavalos contra o vento
Por um momento rompem céus, por um momento...
Co'o firmamento a nos cobrir por solidéu
E a solidão era vencida de almas duas
De tantos brilhos que cobriam faces nuas
A uma princesa, que nunca havia visto o céu
(G. Montenegro)
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
MEGALOMANIA DE UM IDÓLATRA (soneto)
MEGALOMANIA DE UM IDÓLATRA
Idólatra, verá-se em pretensão
De entrar no lar sagrado d'alma humana
E de mudá-lo; donde, vê-se, emana
O anelo de poder em sua mão
Por muito se adorar na escuridão
Vê em si a luz; o resto, um fosso imundo
Por isso há de almejar mudar o mundo
Por ser seu mundo mui menor que um grão
Profeta falso, que a si mesmo expia
No que mais em si mostra cobardia
E em sua cegueira escapa ao seu poder:
Que é igual ao seu mais vilesco inimigo
Que co'ele há de abraçar-se em seu jazigo
E a carne o mesmo verme há de vencer
(G. M. Brasilino)
AO CRUZADO MORTO (soneto)
AO CRUZADO MORTO
Por terra em cujo passo nunca andou
Levando ao coração o Amor e Lar
Por muito amar o que p'ra trás deixou
Por trilhas nas quais não há de voltar
Bravura armada em toda fortaleza
Entregue à Morte a amar mui mais a Vida
Tem vida neste século perdida
A ter a sua candeia eterna acesa
Cruzar de Europa bela ao Oriente
Mister que em Cruz e Espada se encatena
Cavaleiriça nobre cristiana
Peleja e fere e mingua a Lua Crescente
Sangrando a cimitarra sarracena
Minguando a marcha moura maometana
(G. M. Brasilino)
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